Um homem de cabelos desgrenhados e de rosto muito desconfigurado brusca e impetuosamente se aproximou de mim, numa calçada de uma rua muito movimentada. De onde ele saiu? Não vi. Apareceu muito de repente. Ele disse com aspereza:
- Deus não existe, porque eu não posso provar sua existência.
Fiquei surpreso com tal atitude e também com a força da frase. Nunca havia parado para pensar nisso. Mas o homem se assemelhava muito com um louco qualquer e parecia não merecer atenção. A caminhada rumo à farmácia continuou. O homem impertinentemente seguiu-me até lá. No caminho disse-me:
- Você me ouviu? Deus não existe! Você não quer considerar isso, nao é? Deus não existe. Ninguém pode provar sua existência. Você consegue?
O medo cresceu no meu peito e eu queria imediatamente me livrar daquele louco. Poderia ser um ladrão, um mendigo, um assassino. Mas ele não me deixava. Ele foi até a porta da farmácia comigo, dizendo:
- Deus não existe, porque nem eu e nem você podemos provar sua existência. É assim. Simplesmente não existe. Tudo que dizem é ilusão. Não há provas. Nem uma pequena prova existe!
Entrei na farmácia, pedi muitas caixas do meu remédio para dor de cabeça. Que dia! Acordara bem, mas tudo ficou cansativo depois do café. Agora, aquele louco me esperava à porta da farmácia, do lado de fora, às 16:30 hrs. Eu o via através do vidro. Pensei em não sair logo, pensei em demorar-me, na esperança de que ele desistisse de me perseguir. Que homem louco!
- Tudo isso!
- Sim, senhor. São muitas caixas. - disse o farmacêutico.
- Coloca na conta.
- O senhor encerrou a conta no mês passado.
Apertei os lábios desagradavelmente. Não vou fazer outra conta. Coloquei a mão no bolso, tirei a carteira, não há dinheiro suficiente. O louco está la fora: cabelos esvoaçados e secos, barba rala e acinzentada, impaciente e movimentando-se muito. Que dor de cabeça! Mas eu tenho que comprar remédio.
- Vai levar, senhor?
- Quero a metade, por favor.
O farmacêutico entra numa sala para pegar as caixas e demora-se por um tempo. Esforcei-me e lembrei o que o louco dissera no caminho. "Deus não existe, porque ninguém pode provar".
- Será que ninguém nunca provou a existência de Deus? - perguntei-me preocupado - Não existe nenhum argumento ou aquele homem está simplesmente perdido em devaneios ateus? Pode ser que ele simplesmente não conheça nenhum argumento, mas exista razões muito sérias para se crer na existência de Deus.
O farmacêutico volta com os remédios.
- Aqui estão, senhor.
Não sei quanto demorei para responder. Nesse momento, eu estava olhando fixamente o homem do outro lado do vidro, como ficara em todo o momento de minhas indagações, e não entendi imediatamente o farmacêutico. Mas a cabeça dói.
- Senhor, os teus remédios. - diz o farmacêutico estendendo a sacola com as caixas.
- Diga-me - disse abruptamente, despertando das abstrações e me voltando para o homem com os remédios - quem é aquele homem? Você o conhece?
Um riso contido perpassa os lábios finos do farmacêutico.
- Aquele homem é um louco.
- Qual o seu nome?
- Nielmartz Dárin. Estudou tanto que ficou louco.
- O que estudou?
- Filosofia.
- Ah! - fiz um gesto facial de compreensão. Agora faz sentido. Entendia tudo agora.
- Esses filósofos são loucos mesmo. Investigam a própria investigação.
- Fez muitas perguntas e ficou assim: não pode provar nada, nem a própria existência. Vive dizendo - continuou o farmacêutico - que Deus não existe. Não há quem escape.
- Pois é, ele veio me importunando com esse assunto. Dizia que Deus não existe, porque não podia provar.
Quando o farmacêutico ouviu isso, desatou numa bela gargalhada.
- Então ele pegou você também. E o que você acha sobre o que ele diz?
- Bom - pensei um pouco - acho que ele está completamente errado. É claro que Deus existe. Vê se pode!
- Também acho que é evidente. Ninguém pode sinceramente duvidar disso.
A dor de cabeça havia passado de repente. Peguei os remédios, fui em direção à porta triunfantemente: "vou falar com ele".
- O dinheiro! - gritou o farmacêutico. Não o paguei. Voltei, acertei a compra e fui em direção à porta.
- Deus não existe! - bradou o homem quando saí.
- Senhor, Nielmartz. Somente um filósofo não vê que Deus existe. O senhor está completamente errado. Eu te aconselho a não repetir essas coisas.
Ele me olhou com muita desconfiança e atenção.
- Mas Deus não existe.
- Existe sim.
- Não existe.
- Nielmartz, a filosofia atrapalha a cabeça das pessoas. Veja: o senhor estudou tanto, que não sabe nem se existe.
- Pois é - respondeu brusca e asperamente - tenho tanta certeza de minha existência quanto da existência de Deus. Deus não existe. Eu não posso provar a sua existência, você não pode provar a sua existência, nem ninguém na face da terra o pode! Se for diferente, que o senhor me prove então e eu mudarei meu pensamento agora!
O ímpeto com que Nielmartz falou causou-me grande abalo. As respostas faltaram, os argumentos fugiram, a minha boca ficou aberta, esperando que a garganta lhe enviasse algum som inteligível e convincente. Mas Deus existe! E toda a filosofia é loucura! "Fala isso", minha consciência disse ironicamente. E agora?
- Velho Nielmartz! - Um homem de feições muito alegres veio em direção ao louco e saudou-o com muita satisfação - Velho Nielmartz. Quanto tempo, amigo! Como vão os estudos filosóficos?
- Olá. - respondeu Nielmartz secamente e, num tom rabugento, prosseguiu - Estou justamente tentando provar uma coisa muito importante para o senhor aqui, mas ele me disse que estou completamente errado. Insistiu em dizer o contrário do que digo. Nunca vi homem mais teimoso!
- Senhor - estendi a mão ao amigo de Nielmartz e ele estendeu a sua mão e me cumprimentou - muito prazer. Meu nome é Friedrich.
- Jonathans Wesley - respondeu-me.
Jonathans era inglês e tinha um ar muito plácido e contente. Com certeza gostava de filosofia. Falara com muito entusiasmo a Nielmartz e perguntara-lhe sobre os "estudos filosóficos". Mantinha um alegre sorriso nos lábios.
- Nielmartz - disse num amigável tom de reprovação - ainda com alfinetes na língua?
- Agora estou mais certo do que nunca de que Deus não existe. - disse numa crescente empolgação - Investiguei muito, pensei e calculei exaustivamente, e tudo que consegui a respeito da existência de Deus foi a sua inexistência.
- Comprovou realmente isso? - indagou Jonathans
- Mas é claro! Li muitos filósofos importantes, comparei sistemas, investiguei termos, examinei teses, debrucei-me profundamente sobre a lógica - fez uma breve pausa - profundamente e nada!
- Ainda baseado no ateísmo de Nietzsche?
- Não. Constatei que não podia aceitar uma filosofia tão incoerente. Investiguei muito os filósofos positivistas, os racionalistas e em especial Bertrand Russell. Mas fui além. Não fiquei em suas especulações.
Eu estava mudo e alheio à conversa. Alheio, não na atenção, mas no entendimento. Jonathans e Nielmartz estavam se entendendo, mas uma coisa me chamava muito a atenção e era que, de um lado, via um homem sóbrio e feliz, de outro, um tagarela desvairado. Nielmartz mesclava falas muito sérias e sem vida com exclamações e risos fora de contexto. Jonathans sempre atencioso. Nielmartz prosseguiu:
- Vi, então, Jonathans, que o raciocínio dedutivo é tão falacioso quanto o indutivo, porque as idéias universais são formadas através de particulares, uma vez que ninguém tem uma percepção do geral. Você conhece. O raciocínio indutivo nunca é seguro, porque parte de experiências particulares e pela regularidade de experiências da mesma espécie formula um conceito universal acerca daqueles fatos.
Eu me esforçava para compreender e Nielmartz prosseguia avidamente:
- O raciocínio dedutivo, por sua vez, parte de uma idéia universal para asseverar uma idéia particular. Mas aí está o problema! A idéia universal não pode ser nunca segura, porque nasceu de experiências particulares, que poderiam ser destruídas com uma simples exceção; e isso arrasaria o conceito universal.
- O que você conclui daí, amigo? - indagou serenamente Jonathans.
- Concluí que eu não posso confiar em meus raciocínios! - exclamou triunfantemente, mas Jonathans franziu levemente o senho.
- Se você não pode confiar em teus raciocínios, como você argumenta tão enfaticamente que Deus não existe? Você não faz isso através de teus raciocínios?
- Sim, mas é diferente. - Nielmartz respondeu surpreso.
- As tuas cosiderações sobre os raciocínios dedutivos e indutivos estão corretas, mas você nunca parou para pensar que a certeza que falta neles é obtida pela revelação da parte de Deus?
O semblante de Nielmartz descaíu:
- Mas Deus não existe!
Eu, muito curioso, resolvi me embrenhar na conversa:
- Senhor Jonathans, o senhor poderia me dar um exemplo dos dois tipos de raciocínios e porque não são seguros?
- Mas é claro! - disse entusiasmadamente - primeiro o raciocínio indutivo. Por exemplo: digamos que você é um pesquisador marinho e encontre em uma de suas investigações um animal completamente desconhecido, com duas cabeças e vermelho. O que o senhor pensaria? Basicamente, poderia pensar se tratar de uma anomalia ou de uma nova espécie de animal marinho. Não é verdade?
- Sim - respondi.
- Você prossegue e encontra mais um deles, e depois outro e então um grande grupo com vários deles, sempre com duas cabeças e vermelhos, vivendo normalmente numa determinada região de algum oceano. A tua conclusão é: descobri uma nova espécie de animal marinho! Então você dá o seu nome para a espécie: eles são friedrichs e todos os friedrichs, você conclui, têm duas cabeças e são vermelhos.
Nielmartz achou muito divertido a aplicação do exemplo ao meu nome. Jonathans prosseguiu:
- O que aconteceu nesse processo de pesquisa?
- Não sei - respondi.
- Você saiu de casos particulares (o primeiro animal, depois o segundo semelhante ao primeiro, depois o terceiro, etc.) e chegou a uma idéia geral: "todos os friedrichs têm duas cabeças e são vermelhos".
- Sim, compreendi. Mas não vejo problema nisso.
- O problema é o seguinte: e se você descobrisse um friedrich azul?
A pergunta era interessante e eu queria responder.
- Ora, evidentemente, ou seria uma anomalia ou outra espécie - disse animado.
- Muito bem. Se se tratasse de uma anomalia, mas ainda fosse friedrich, você deveria concordar que nem todos os friedrichs são vermelhos, porque ao menos os anômalos podem ser azuis.
Achei o raciocínio muito interessante. Jonathans era mesmo inteligente. Será que a filosofia era tão má assim? Mas pensei logo em Nielmartz e conclui que, embora a argumentação de Jonathans fizesse sentido e parecesse boa, a de Nielmartz também, pra mim, fez sentido e, assim, a filosofia continuava sendo má.
- Mas, amigo - continuou Jonathans - se você, na sua pesquisa, passasse a descobrir, daí para frente, somente friedrichs azuis? O que diria?
Nielmartz soltou uma expressão de muita satisfação com a pergunta. Pensei um pouco.
- Descobriria que os friedrichs tem duas cabeças, mas podem ser vermelhos ou azuis.
- Muito bem! - Jonathans disse muito contentemente - você tocou no problema do método indutivo.
- Eu? Qual é, então?
Nielmartz se interpôs e me explicou:
- Você teve de mudar a sua idéia geral por causa de novos casos particulares. Quando você conhecia somente friedrichs vermelhos - deu uma gargalhada apressada - você tinha um conceito: todos os friedrichs têm duas cabeças e são vermelhos. Mas, como você descobriu tantos outros friedrichs azuis, teve de reformular o seu pensamento para: todos os friedrichs têm duas cabeças e podem ser vermelhos ou azuis.
Havia muita razão no que Nielmartz dizia.
- E se você descobrisse tantos outros friedrichs com três cabeças?
Calei-me. Estava claro que tinham razão. Provaram-me que o raciocínio indutivo não era seguro. Mas... e o raciocínio dedutivo?
- Agora - disse-me Jonathans - você deve estar se perguntando sobre o raciocínio dedutivo.
Esse homem lê mentes? Indaguei-me por indagar.
- Não, não leio mentes. Apenas considero o que seria mais provável num caso como esse - disse sorrindo - O raciocínio dedutivo é o oposto do indutivo. O indutivo parte de fatos particulares para formar uma idéia geral, mas o dedutivo parte da idéia geral para os fatos particulares. Um sobe a escada, o outro desce.
- Poderia me dar um exemplo?
- Claro! Imagine que você comece a comercializar (legalmente, é claro) friedrichs, e um rapaz do sudeste brasileiro compre um de você. A entrega do animal demora e o brasileiro começa a ponderar, baseado em tua pesquisa, acerca do futuro bicho de estimação:
"Todos os friedrichs têm duas cabeças e são ou vermelhos ou azuis
Totó é um friedrich
Logo, Totó tem duas cabeças e é ou vermelho ou azul."
Veja - prosseguiu Jonathans - como o raciocínio partiu da idéia geral "Todos os friedrichs, etc.", passou por um caso particular "Totó é um friedrich" e terminou numa conclusão particular, isto é, acerca de um único animal, o Totó. Assim é o raciocínio dedutivo.
- Mas... e o problema?
- O problema está em que essa idéia geral não é segura, porque pode mudar a qualquer instante, dependendo de fatos particulares, como já foi explicado.
Concordei. Nielmartz sorria, parecia triunfar na minha fraqueza. Jonathans prosseguiu:
- Assim, nosso amigo, Nielmartz, concluiu que nenhum tipo de raciocínio é seguro, uma vez que os raciocínios ou são indutivos ou dedutivos e não há outros modos. Mas isso é completamente contraditório, porque ele chegou a essa conclusão por meio do raciocínio. Então, ele não teria nenhum motivo para confiar em suas conclusões, ou seja, que os raciocínios são incertos.
Toda essa argumentação muito me agradava, porque estava entendendo, mas a filosofia me colocou num beco sem saída.
- Mas há uma saída - disse Jonathans, como que lendo mais uma vez a minha mente - Penso que é nessas circunstâncias que entra a importância da revelação divina, impossível de ser alcançada pelo raciocínio e totalmente necessária para a vida. Se nós partíssemos de idéias gerais totalmente seguras, reveladas por Deus, poderíamos ter a certeza da segurança dos raciocínios e de nossas conclusões. Não teríamos o medo de crer nessas idéias gerais, porque aquele que conhece todos os animais e todas as coisas nos daria a certeza dessas idéias pela sua infinita sabedoria e onisciência.
Aquela conversa me interessava muito. E aos poucos eu entendia cada vez melhor. Nielmartz era quem não estava gostando da conversa agora. Falar de Deus não era com ele. Deus não existia.
- Assim - prosseguiu Jonathans - poderíamos estar seguros da imutabilidade dessas idéias gerais, independentemente das novas e tão numerosas descobertas científicas. Tendo consciência das idéias gerais reveladas por Deus ao ser humano, estaríamos seguros. Mas o amigo Nielmartz não acredita em Deus e fica preso, então, a uma forte e horrível malha de contradição. Não é, amigo?
Nielmartz comportou-se nos movimentos e gestos um tanto irracionalmente. Torceu o rosto, balançou a cabela, bufou e disse:
- Mas Deus não existe, porque você não pode provar sua existência.
Fiquei quieto, mas Jonathans balançou a cabeça reprovativamente.
- Esse argumento é falso, Nielmartz.
Nielmartz olhou espantado e muito contrariado para o amigo:
- Mas é claro que não! Argumento sólido. Se Deus não pode ser provado, não existe!
- Amigo, estudei muita filosofia também e seguimos caminhos bem diferentes. Analisei vários argumentos acerca da existência de Deus e me convenci cada vez mais de Sua existência. Não que, para mim, eu precisasse de algum outro argumento além do testemunho interior que tenho, mas minha fé foi fortalecida. Não discorrerei sobre cada argumento, mas digo que a tua filosofia não faz sentido algum, porque você despreza o valor do raciocínio e diz que pelo raciocínio você concluiu que Deus não existe. Para você, quem tem menos valor: o teu raciocínio ou a tua conclusão?
Nielmartz tinha a testa franzida loucamente, os lábios entre-abertos e os braços cruzados.
- Além disso, meu grande amigo - continuou Jonathans - o teu raciocínio contra a existência de Deus não é válido. Você diz "Deus não existe, porque eu não posso provar sua existência". Isso implica num pressuposto: "Tudo o que eu não posso provar não existe", o que é falso, porque, se não posso provar a existência de algo, o máximo que posso fazer é suspender meu juízo sobre o assunto, pois pode ser que não exista, mas pode ser que exista. Se alguém me fala que existe o planeta Dárin e eu não tenho argumentos para provar a sua existência, não posso dizer que ele não existe, nem posso dizer que existe; eu devo concordar que não sei. Assim, se você não consegue provar a existência de Deus, no máximo, você pode dizer que não sabe se Ele existe ou não, e não concluir erradamente Sua inexistência. Para provar a inexistência de Deus, você precisaria de prova. Você tem alguma?
- Para a inexistência? - Nielmartz pronunciou tais palavras tremulamente e tremulamente respondeu - Não.
Eu fiquei paralisado. Olhei as muitas pessoas em volta e todas passavam, iam e não voltavam. Sempre rostos novos. A minha dor de cabeça desaparecera totalmente. Pensei em devolver os remédios. Segurava a sacola em minha mão direita.
Não havia dúvidas que Nielmartz e Jonathans eram grandes amigos, mas agora Nielmartz estava tão confuso como um soldado derrotado aos pés de seu triunfante vencedor. Nielmartz tinha a expressão de quem iria perder a cabeça.
- Mas Deus não existe!
- Por que não existe?
- Não posso provar.
- Deus não existe?
- Sim, não existe.
- Pode provar?
- Não posso provar!
Jonathans sorriu, deu um abraço no amigo, disse "Até mais, Nielmartz", virou em minha direção e me disse:
- A paz do Senhor, Friedrich.
E foi embora. Fiquei novamente sozinho com Nielmartz, que estava um tanto atônito. Virei para ele, apertei-lhe a mão, dizendo-lhe "A paz do Senhor, amigo", deixei com ele a sacola de remédios para dor de cabeça e segui tranquilo o caminho para casa.
Rouver Júnior