quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Peregrinação: Capítulo I

TEMPOS DIFÍCEIS

Fernando se encontrava numa terra distante da sua pátria, no meio de costumes esquisitos, ouvindo outro idioma distinto da sua prazerosa e fácil língua-mãe. Por estas paragens estrangeiras, os dias amarguravam-se mais e mais, as notícias dolorosas multiplicavam-se, emergindo do nada para a existência cotidiana a cada nova manhã. A justiça se afrouxava, o juízo saía pervertido, a moral e o respeito eram trocados pela imoralidade e ignomínia, os bons padrões de convivência humana evolavam-se e sumiam-se nos ares, o ímpio reinava e o povo suspirava longamente. Havia uma infelicidade geral na terra.

Pátria! Quanta saudade! O país remoto, a saudosa nação de Fernando, cheia de lembranças suaves, de alegrias tranqüilas, toda felicidade, toda paz, toda sossego, os marulhosos rios das cantilenas ditosas, o gorjeio das multidões de pássaros em revoada, as palmeiras conversosas, tudo lhe recheava as horas com pensamentos agradáveis. Os cânticos eram doces, os sorrisos sinceramente frouxos; a nação inteira unida em torno de um único propósito. Como, agora, cantar os hinos antigos de folguedo no desterro inexpugnável e fazer vibrar nos instrumentos nacionais a sincera alegria de outros tempos?

Na indústria, Fernando se esforçava para trabalhar honestamente, mas seus patrões lhe impunham cargas excessivas de serviço, faziam-lhe embrutecidas cobranças de resultados e lhe pagavam salários de menos.

Entenebrecia-se o cenário do país. Certo dia, o governante maior, como já podia prever-se pelo correr dos acontecimentos, baixou em todo território um decreto onde aprovava cristalinamente a legalidade da livre perseguição aos compatriotas de Fernando. Houve um não pequeno pranto naquele país e amarga tristeza no meio do povo. O decreto, porém, era irrevogável. Assim, pois, o povo perseguido apressou-se a fugir dos limites territoriais submetidos à nova lei promulgada, mas infelizmente alguns foram alcançados antes da realização da fuga. Dentre eles, alguns sofreram torturas e prisões, outros entraram contra vontade em grandes vagões de trem cujo destino era os campos de trabalho forçado de terras frias e distantes, e houve mesmo quem morresse tristemente nas inomináveis câmaras de gás. Fernando, porém, e outros seus compatriotas, conseguiram cruzar as fronteiras e entrar assim numa peregrinação que lhes anunciava muitas dificuldades espreitando no caminho, mas cujo fim era o retorno ao lar saudoso, à pátria inesquecível de alegria transbordante, onde os campos eram extremamente coloridos, de um verde quase resplandecente, o ar puríssimo e saudável, as claras águas frescas espelhando os raios do sol belíssimo e onde toda a plenitude da felicidade enchia os sentimentos. Fernando carregava no coração o gracioso desejo de contemplar essa pátria onde reina eterno amor, a feliz morada.

2 comentários:

valberricardo disse...

Muito bom Junior! Está maravilhoso. Quero logo o capítulo 2.

Jelcimar Rouver Jr. disse...

Valeu pela participação, Valber.

O segundo capítulo fica para semana que vem. rsrs