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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A descoberta das próprias convicções

A descoberta das próprias convicções é o processo pelo qual o indivíduo pensante enxerga as opiniões que são, em seu coração, realmente suas, aquelas que ele sente e vê com sinceridade serem as mais adequadas à realidade. Ele as distingue das demais opiniões circulantes e diz de si para si que é em tal opinião que de fato crê. Sua opinião não é necessariamente sua no sentido de ele ter sido a fonte única dela. Pode acontecer muito bem de tal opinião ter vindo de outras pessoas e grupos, mas é, porém, aquela que ele vê como mais fidedigna à verdade.

A descoberta das próprias convicções se dá a partir da investigação interior contínua, da sondagem dos próprios pensamentos, da crítica das idéias particulares, no oculto do coração. Tal sondagem usa como instrumento precípuo a palavra. É através dela que o sujeito dirá para si mesmo o que viu, viveu, sentiu e pensou, em suma, expressará a própria história pessoal e buscará a origem das suas idéias, perguntando-se "de onde elas vieram? de quem as recebi?" o que elucida muita coisa.

A expressão contínua da realidade desenvolve o senso da realidade, de modo que a pessoa, tendo tal realidade como referência, pesará a adequação de suas idéias, não se deixando levar por devaneios, histerias ou mentiras, que podem vir de si mesmo, da sociedade em geral ou de demagogos e aproveitadores tão numerosos nos dias de hoje.

O processo é lento e exige uma atividade de sondagem interior diária, contínua, dedicada, para que aos poucos cada idéia seja pesada, analisada, criticada e unificada com outras que se encontram dispersas pela alma. O trabalho de investigação das próprias convicções também implica a unificação do conhecimento e da consciência.

É importante descobrir as próprias convicções para saber o que realmente pensa e não ser guiado por idéias alheias de origens ignoradas, tomando as rédeas das próprias ações.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Obrigado a ter direito?

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Neste texto analisarei basicamente alguns aspectos relacionados à concepção de direito, a fim de ver se no Brasil a educação se apresenta como direito ou como obrigação. Não sou versado nas ciências jurídicas, mas como cidadão penso que posso expressar algumas idéias. Deixo claro que o intuito desse texto não é questionar a importância da educação, sabendo que não é somente a escola pública que fornece educação e socialização; mas, como já explicitado, o intuito é ver se no Brasil a educação é direito ou obrigação.

Diz-se que temos direito à saúde. Isso significa que, se eu ficar doente ou ao menos suspeitar de uma enfermidade, posso livremente recorrer a um médico da rede pública. Não sou, porém, obrigado a dirigir-me a um consultório público, mas posso escolher ir a um médico particular ou mesmo não ir a médico nenhum, porque faz parte de minha liberdade de escolha. Ninguém poderá punir-me de forma alguma por qualquer dessas escolhas, a saber, se recorro à saúde pública, se prefiro a particular ou, ainda, se não recorro a nenhuma das duas.

Diz-se também que temos direito à aposentadoria, o que significa que, cumprido certo tempo de trabalho, poderei, sem trabalhar, usufruir de um salário. Não sou, porém, obrigado a receber esse salário, ficando à minha escolha o recebimento. Ninguém poderá punir-me se me oponho a recebê-lo, porque faz parte de minha liberdade de escolha. Assim, tanto a saúde pública quanto a aposentadoria, sendo direitos, estão debaixo de minha liberdade, não havendo para mim punição alguma por qualquer das escolhas que tomar.

E se a saúde pública e a aposentadoria fossem obrigações? De fato, ficando doente ou suspeitando de enfermidade, seria dever imposto ir direto e somente a um consultório público e, cumprindo o tempo de trabalho, receber sem questionamentos o meu salário. Nessas coisas, eu não teria liberdade alguma de escolha e mereceria punição se não as cumprisse.

Portanto, vê-se que, se tenho direito à saúde, não tenho obrigação a ela; se tenho obrigação, não tenho direito. Direito e obrigação, na mesma relação, são mutuamente excludentes.

Quanto à educação, se tenho direito a ela, não tenho obrigação; se tenho obrigação, não tenho direito.

Se tenho direito à educação, posso escolher ir à escola pública, ou ir à escola particular, ou ainda não ir à escola, ficando ao meu critério e à minha liberdade a escolha e não cabendo a mim (nem a pessoas ligadas a mim) nenhuma punição por qualquer alternativa tomada, a saber, se vou à escola, particular ou pública, ou se não vou. Romper essa liberdade é excluir o meu direito, tornando a escola uma obrigação.

Se tenho obrigação à educação, não tenho direito à escolha, porque devo estar presente na escola logo se complete certa idade, sob pena, caso não cumpra tal obrigação.

Conclui-se, portanto, que no Brasil a educação tem mais caras de obrigação do que de direito, porque os pais, se não enviarem seus filhos à escola a partir de certa idade, estão sujeitos a punições. Dessa maneira, se pago impostos para ter educação, pago impostos para ter obrigação.

Rouver Júnior

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Imagem retirada de http://images.quebarato.com.br/photos/big/B/B/1F18BB_1.jpg e editada pelo autor do texto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Escola pública: direito ou obrigação?

Todo o brasileiro tem direito à educação, a ir à escola e a participar de uma aula ministrada pelo professor. Mas será que isso é direito mesmo? Quando eu tenho direito a usufruir de alguma coisa, eu tenho também a escolha de usufruí-la ou não. Se eu tenho direito à escola eu não posso ter obrigação à escola, porque assim eu só fico com a obrigação e o direito vai embora. A partir disso, vê-se que no Brasil o direito vira obrigação. Os pais são obrigados a enviarem os seus filhos para a escola, ainda que tenham mais condições de educá-los que a própria instituição.

Conforme nos informa o filósofo Olavo de Carvalho em seu artigo "Educação ou deformação?", publicado no Diário do Comércio (23/10/2009) e também em sua homepage (aqui), o MEC "considerou inconstitucional a legalização do homeschooling por violar o direito de todos à educação pública". Com acalorados argumentos, o filósofo mostra que não há oposição necessária entre ter direito à educação pública e quererem os pais ministrar aulas para os próprios filhos. Isso é completamente conciliável: os pais têm direito à educação pública, mas não querem usufruir dele, preferindo algo que consideram mais viável, a educação em casa. Impedir esse direito dos pais, fazendo-os obrigados a mandarem seus filhos à escola, é tornar o direito em obrigação e, assim, tem-de surgir a seguinte pergunta, bastante perturbadora para o brasileiro: eu pago imposto para ter direito ou obrigação?

Deixo aqui, portanto, essa reflexão para os leitores.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Verdade e educação: nota

A verdade é tão fundamental para a vida do ser humano que viver sem ela é impossível. Todo o homem tem a propensão para acreditar na verdade. Ninguém quer acreditar no falso, porque isso significa estar enganado. Não é radicalização.

De fato, até aqueles que negam a existência da verdade querem que as pessoas pensem ser seus pensamentos verdadeiros e confiáveis. Se o indivíduo que argumenta contra a existência da verdade assume em um debate, desde o início, que fala mentira, ele cai no absurdo e no descrédito. Ele tem de parecer que fala a verdade, e realmente assim quer. Desse modo, a única maneira de um relativista - aquele que não crê na verdade absoluta - argumentar contra a verdade é assumi-la. Isso é totalmente contraditório.

É interessante o leitor entender isso, porque no momento atual da História a sociedade passa por uma grave crise de descrença. A pós-modernidade com seu relativismo, atrelado ao comunismo militante de revolução cultural, vem destruindo muita coisa. Na antiguidade, depois do embate entre Parmênides e Heráclito, surgiu uma forte crise. Dessa crise surgiram os sofistas. Eles não tinham compromisso com a verdade objetiva, mas basicamente ensinavam meios de persuasão. Então surgiram Platão e Aristóteles. Da disputa entre o pensamento dos dois, veio outra crise. O ceticismo, o epicurismo e o estoicismo apareceram fortemente. Mais tarde apareceu Tomás de Aquino conciliando fé e razão. Em resumo da história, veio Kant e separou-lhes. Este filósofo foi a fonte do existencialismo, da fenomenologia, do pragmatismo e do relativismo modernos, dentre outros. Hoje o pensamento filosófico está em crise e, logo, a sociedade passa por ela também. Entretanto, parece que o momento mais anti-intelectual da História do pensamento é o atual.

Bom, depois dessa história, pergunto: se não houvesse verdade e tudo fosse relativo, para que argumentar? Se as informações passadas em um texto não são, pelo menos, pretendidas verdadeiras, para que escrever? Se não há pensamento verdadeiro, para que ensinar?

Note o leitor que isso afeta frontalmente a educação. Se o que o professor ensina não é verdade e tem o mesmo valor da crença anterior do aluno, ensinar não é necessário. O aluno vai terminar acreditando em algo que vale tanto quanto o que acreditava antes. Assim, a educação não gera mudança significativa no indivíduo. Pela visão que nega a verdade, saber vale tanto quanto ignorar. A escola é, então, desnecessária.

Pois é. Pretendia escrever um texto menor. Agradeço ao leitor que leu até aqui pela paciência e peço-lhe ainda mais um pouco de perseverança em ler. Mais um parágrafo e duas pequenas frases.

Se há algum professor adepto do relativismo lendo este texto, peço-lhe pense sobre a implicação do relativismo na educação. Os alunos precisam aprender coisas verdadeiras e confiáveis. Eles precisam aprender a questionar, mas com as questões certas e buscando uma resposta, que deve ser verdadeira.

Enfim terminou. Obrigado leitor.

(Rouver Júnior)